sábado, 21 de abril de 2007

Fernando Guilhon é uma armadilha para motoristas


Desde 2004, já morreram mais de 90 pessoas no trânsito da cidade de Santarém, que é o segundo mais perigoso do território paraense, conforme estatísticas recentes do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Mesmo com a carência de estudos e pesquisas que apontem as causas reais e suas respectivas proporções que alimentam este quadro fúnebre, é possível dizer-se intuitiva e empiricamente que um número considerável de acidentes é resultado causal dos inúmeros gargalos de infra-estrutura que o meio urbano santareno coleciona há anos. Dentre esses gargalos estão a falta de pavimentação de ruas, travessas e avenidas, o acúmulo de poeira nas margens das vias públicas, a inexistência de sinalização de trânsito permanente e a deformação e corrosão lateral das pistas de rolamento. A este rol adjungem-se mais um: o atraso na conclusão de obras públicas, como é o caso, por exemplo, do ambicioso projeto urbano-arquitetônico da rodovia Fernando Guilhon, no bairro Santarenzinho.
Em abril de 2002, ainda no governo municipal de Lira Maia e governo federal de Fernando Henrique Cardoso, foi iniciada a 'construção do Anel Viário com elevado no cruzamento da rodovia BR-163/PA com rodovia Fernando Guilhon', com data para conclusão, conforme dados constantes de placa afixada na margem direita da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), em dezembro de 2006. Como bem aduz o consultor de empresas e coordenador do curso de Administração do Instituto Esperança de Ensino Superior (IESPES) Haroldo de Sousa, a obra foi planejada dentro de um contexto futuro do turismo na região Oeste do Pará, onde Santarém urge na mídia com o frondoso título de 'Pérola do Tapajós'.
Mas ao longo de 57 meses, a obra ainda não foi concluída e os cidadãos-contribuintes santarenos não hesitaram em taxá-la de 'elefante branco', numa clara referência à histórica incompetência do poder público em geral de finalizar tudo aquilo a que se propõe executar. Estrategicamente, antes de expirar o prazo, o governo municipal da prefeita Maria do Carmo iniciou a duplicação de trecho da rodovia Fernando Guilhon paralelamente à conclusão da obra do tão criticado Anel Viário. Ou seja, uma obra sequer estava concluída e outra já estava sendo iniciada. Como já era previsível, foi reacendida a esperança dos moradores do bairro Santarenzinho com as possíveis melhorias infra-estruturais. 'A gente passou a comentar que logo alguém ia construir hotéis por aqui, por causa da proximidade com o Aeroporto, que as ruas iam ganhar um visual mais bonito e que os nossos problemas iam ser resolvidos, inclusive a pavimentação das ruas. A gente sabe que tudo isso leva tempo, mas a gente sabe também que vai levar muito mais tempo se essas duas obras, que parecem ser uma só, sejam de fato concluídas, ou pela empresa licitada ou pela Prefeitura', raciocina Francisco Portela, 56 anos, morador há sete anos da rua Cáritas.
Com as chuvas, os trabalhos de terraplenagem, aterramento e nivelamento da Fernando Guilhon se traduzem em lama; com o estio, em poeira. De fato, até fevereiro de 2007, a Prefeitura tinha que agendar horário para o carro-pipa molhar a rua, de modo a conter a suspensão de partículas de poeira. Mas agora, com a intensificação da freqüência de chuvas, o carro-pipa teve que ser aposentado, pois o desafio não é mais as nuvens de poeira, mas sim a nata lisa de lama. Condutores de motocicletas deslizam, caem e se machucam. Na madrugada do dia 10 de abril, terça-feira, o mototáxista de pré-nome Ricardo caiu de seu veículo e quebrou a perna. A ambulância demorou mais de 50 minutos para chegar. Neste intervalo, foi a vez do estudante Fausto tombar e sujar toda sua roupa de lama, justamente quando se dirigia para o Aeroporto. O jovem não teve nenhum osso de seu corpo fraturado, mas teve que adiar sua viagem para Belém. 'O engraçado é que essas obras têm data certa para começar, mas não têm data certa para terminar. O mais engraçado ainda é ver a Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito e a Polícia de Trânsito (PTRAN) fazerem várias blitz na cidade toda semana. Ou seja, para eles é fácil multar e apreender veículos, mas não garantir um trânsito seguro para todos aqueles que trafegam regularmente', reclama Fausto.
São freqüentes as reclamações dos moradores do bairro Santarenzinho na imprensa santarena. A maioria relacionada à escuridão na rodovia Fernando Guilhon, que estava, inclusive, contribuindo para iniciar uma onda de violência naquele perímetro. Até hoje, o problema da escuridão não foi resolvido e agora se soma com os perigos de tráfego na via pública.'Se a Prefeitura demorou quase quatro meses para fechar aquele buraco da avenida Borges Leal, imagine quanto tempo vai demorar para concluir essas obras', compara a dona-de-casa Maria Jeane da Silva Freire, 29 anos, moradora da rua Joana D'Arc. há quatro anos.

Mário Barbosa

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